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Entrevista com o Poeta

(Play) Reporter – Poeta, você sempre teve uma estrela boa ? Poeta – Sim…! Rep. – E a que se deve o fato de você ter andado em baixa ultimamente ? P. – Todas as vezes que eu dividi minha estrela  com alguém a minha luz se apagou e eu não tive com o que me guiar, e além disso o “ter andado em baixa” se deve ao pouco uso do alfabeto, ao descaso do analfabeto e a intransigência das palavras em reinventar o dicionário… Rep. – E porquê ? P. – Pelo fato do poeta ter como caminho a prostituição, e como sina a solidão; além de estar totalmente desacreditado que a poesia o leve a algum lugar… há muito que o dom de criar do mundo se acabou, e as pessoas se preocupam em recriar, copiar ou relembrar aquilo que não sabem mais como fazer… mas não é o mundo que adoeceu, e sim a vontade individual do “querer” que adormeceu para sempre no interior de cada um, e por isso nos limitamos a entrevistar personagens, mitos e personalidades com perguntas óbvias, comportadas, medíocres e obje...

Coisificando

A mesma mão que amassa é a mão que amacia A mesma dor que mata é a dor que alivia Na baixa do sapateiro desce o santo do Zapatero Em cubas tumores se acumulam, em Cuba Fidel renuncia No sul tchê se anuncia na ilha Che silencia A menina que passa na esquina é a mesma que fica na retina dos olhos A memória ram do computador não supera a memória da rã do interior Cachimbos de crack sob o viaduto Maria Paula são diferentes de odores e aromas de cachimbos na Vila Buarque No dia do professor atores incultos professam saberes ocultos em sua erudição No segundo turno elegem-se jogadores do primeiro tempo Esfomeados na praça da Sé não diferem de advogados com pressa na praça João Mendes não mentem omitem sempre O que não foi feito será dito refeito em versos revistos em palavras que deveras sente…

AUTO RETRATO E RADIOGRAFIA DO EU MESMO

Quando olho no espelho, tenho alguns anos a mais do que eu pareço ter e alguns anos a menos do que eu realmente tenho. Atualmente tenho quarenta e cinco, mas também tenho vinte, tenho sete, tenho trinta e tantos outros que já vivi; mas também posso ter setenta, somadas todas as horas de aprendizado e experiência. Quando olho no espelho vejo o homem que já foi um dia e o que virá a ser: criança, velho, mulher, planta, inseto, índio, oriental, negro, apressado, zen… Quando acesso a minha memória “rã”, retiro sapos, cobras e lagartos do meu passado, mas também deleto lembranças tristes, pensamentos maldosos, inveja, dor, ressentimentos… Procuro salvar arquivos da minha história, do meu país e do mundo para não perder as referências do meu passado, para que eu possa apre(e)nder no futuro, organizo as pastas da memória com todos os livros  já lidos e escritos pela minha letra ininteligível e aqueles que ainda irei ler e redigir; com as emoções sentidas e experimentadas ...

VERSOS QUE MACULAM O VERBO

Poetas escrevem reto sobre folhas planas seus caminhos tortos Poetas imprimem mancham sobre folhas alvas seus escritos de sangue Poetas deliram febris sobre folhas descartáveis suas angústias plenas Poetas sorriem esperança sobre folhas mortas suas vidas vagas Poetas sonham acordado sobre folhas mudas expectativas Poetas desenham cores sobre folhas virgens suas meias verdades Poetas recriam seres sobre folhas impuras fantasmas e fantasias Poetas imitam estórias sobre folhas abertas segredos sombrios… Poetas de longe monges beneditinos meditam orações gregorianas Poetas de perto políticos expertos conchavam acordos na penumbra Poetas daqui indigentes do mandaqui inventam conquistas quixotescas Sobre folhas poetas se expressam Sob folhas poetas se escondem…

Caixa Postal Platônica

então ? tá combinado é preciso que a gente se encontre é preciso que a gente se fale é preciso que a gente se beije é preciso que a gente se deixe então tá ! falar tudo que não foi dito sussurrado, gritado descrito deixar pra trás o que não foi feito deixar pro futuro o que deve ser  refeito beijar o último beijo e o primeiro de muitos que podem ser esquecidos recriados revividos com a última queixa a última deixa então tá… combinamos assim sem ter sido

REFLEXÂO AO LARGO DO DIA ESTREITO

TEM DIAS QUE EU ACORDO POETA E NOITES EM QUE SOU JORNALISTA TARDES LONGAS EM QUE SOU CRÍTICO SEMANAS INTERCALADAS ONDE ME TORNO PRÁTICO MESES INTERMINÁVEIS EM QUE ESTOU CÉTICO AS VEZES ATUO EM OUTRAS  ME ATURO MUITAS VEZES EU DANÇO ESCORREGO VEJO ME LEVANTO OUÇO EXISTEM MOMENTOS QUE SOU ÉTICO OUTROS PROFANO NEM SEMPRE EU BRIGO QUASE SEMPRE  EU GANHO OU APANHO AS VEZES  EU RIO RIO LARGO RIO LONGE EXISTEM  HORAS QUE EU SONHO MAS  QUASE SEMPRE REALIZO MITOS…FLORES…PROJETOS…SERES  E  REALIDADES

Sobre Artistas e Ídolos

O que difere um artista de um ídolo ? ídolos são criados, produzidos, inventados, maquiados a imagem e semelhança do criador ou do monstro que os criou artistas são gerados,  são nascidos, evoluidos, são crescidos nos ventres de mães que não os pariu ídolos são reluzentes, são automáticos, tem belos dentes, num dia aparecem, no outro se esquece, são todos iguais artistas se escondem, nem sempre se encontra, não gostam de espelho, são diferentes na indiferença, são únicos e raros ídolos sobrevivem em bandos artistas andam sozinhos na corda bamba ídolos imitam, repetem artistas encantam, subvertem ídolos aparecem nos outdores nas capas de cadernos nos papéis de parede dos celulares nos programas dominicais da televisão artistas se fazem nas mesas de bares no escuro dos becos invadem sua mente e o seu coração ídolos são como papel higiênico, alguns se reciclam, mas não perdem as manchas e tem o mesmo destino artistas são como a tela pintada a óleo que se desvenda aos pouco...