Pular para o conteúdo principal

Vocês fizeram o meu dia um pouco mais feliz...

Vocês fizeram o meu dia um pouco mais feliz...

Um sábado a noite sentado na mesa de um bar entornando a cerveja gelada na noite fria de um fim de inverno paulista e misturado ao calor humano de bêbados entusiasmados e dançarinos embriagados pela música pobre de duplo sentido, me concentro em me antenar com as noticias do radio e também do jornal que comprei de manhã e ainda não li e em meio ao caos tento me fechar no casulo de informação me mantendo sempre atento em observar a cena e os olhos que me olham como um extraterrestre em meio ao carnaval

De repente percebo de canto de olho um movimento estranho adentrando ao cenário da praça
uma mulher sexagenária despida da cabeça aos pés dos seus pudores de sua dignidade de sua cidadania, com seu olhar de espanto e medo com seu sorriso desdentado de sonhos...

Alguns acham graça daquela mulher nua no meio da praça
Eu acho triste
a Maria Nua no Largo de Pinheiros
Lady Godiva em seu cavalo frágil/imaginário

Os frequentadores dos bares e da praça se agitam entre risos piadas registros com seus celulares e selfies com o inusitado além de indignação raiva e ódio da pertubação da ordem a ponto de alguns quererem partir pro confronto pra expulsar aquele lixo em forma de gente ou mesmo acionar a polícia para carregá-la pra longe das suas visões inebriadas pelo atentado ao pudor...
mas em meio ao protesto algumas garotas que conversavam e dançavam com seus vestidos e panôs coloridos de africanidade na alegria de ocupar a praça que é de todos se movimentam se articulam e como numa operação de resgate percebem a situação e se alternam entre sentar ao lado da Maria nua  triste e sorridente e puxar conversa ouvir suas estórias crivadas de história de rua história real de abandono lamentação e tristeza, mas com alguma esperança de ser feliz e sair de sua nudez de princípios e acreditar em noites de cinderela em sua carruagem reluzente...

as minas pretas abraçam a Maria Nua e preenchem um pouco a sua solidão
as minas preta envolvem uma a uma partes de suas roupas e vestem a Maria antes nua agora a Maria vestida de afeto de solidariedade de carinho mesmo que por um breve instante  e agora feliz pelas roupas e amigas que ganhou beija e dança com elas a sua alegria, depois ela iria se recolher para o seu canto no meio da calçada com seu teto de estrelas escondidas em meio as nuvens de uma noite fria para quem sabe sonhar um pouco com um novo dia de uma nova vida ou acordar no pesadelo do dia seguinte...independente disso essas minas guerreiras sensíveis e bonitas fizeram o meu dia um pouco mais feliz...

Assim como a Maria Nua de Pinheiros conheço e convivo pelas ruas, roteiros e andanças com outras marias das ruas das quais um dia quero contar suas estórias:

a Maria Falante na Lapa em conversas intensas com seus demônios e suas DRs infinitas na madrugada desbocada e refugiada em seu calvário
a Maria Cantante em Santo Amaro com seus desaforos pra quem passa e a sua doçura no seu lamento melódico
a Maria Bailarina em Diadema com suas insinuações e o seu requebrado de dentes em vão de passo bêbado de pé quebrado


Todos somos Marias em meio ao caos !...

"Isso não é uma coisa engraçada
Nem deveria ser uma coisa triste
Isto é só a realidade que existe
A realidade que é...

Personagens:
As mina preta
A maria nua
A maria cantante
A maria bailarina
a maria louca e falante....

Localização:
Maria Nua no Largo de Pinheiros
Maria Cantante nas ruas de Santo Amaro
Maria Bailarina em Diadema
Maria Louca/falante na Lapa
marias sem nome e sem rosto espalhadas no dia a dia

Quando vivenciei este cena a Maria da Lapa gritava com seus fantasmas na janela da minha casa acordando a madrugada que adormecia, hoje quase um mês depois já não ouço mais os seus gritos de "baixo calão", seus dialogos intermináveis que só cessavam ao amanhecer... tenho pensado que esta Maria se foi, se calou como tantas sem direito de imagem...


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O existir pode ser mais longo que desistir

Penso que os dias são belos quando conseguimos viver um dia inteiro Tento fazer de um instante um momento que se transforme num acontecimento Tenho pra mim que o presente é o meu futuro mais urgente Sinto uma tristeza imensa quando vivencio muitas alegrias Porquê não somos tudo isso, porquê não somos só isso Somos um pouco mais e um pouco menos do que podemos ser E aí o meu riso  o meu choro se confundem na sua cama Na sua calma e na sua pressa de definir as coisas na necessidade de dizer que é isso ou aquilo Toda a certeza dos meus dias se confundem na incerteza dos meus sonhos Tudo pode ser um vir a ser quando pensamos que ainda nem somos Que nem fomos o que podemos ter...

Te amo !

quando amanheço quando acontece quando eu consigo dormir quando eu me perco ao te encontrar quando anoiteço quando eu te vejo quando eu te esqueço quando eu tomo café quando vejo suas marcas ao acordar quando estou bêbado quando eu me esqueço quando vejo seus olhos tristes quando estou lúcido quando ouço seu riso frouxo quando viajo pro além quando não tenho pra quem ligar quando estou sem ninguém quando estou nas nuvens quando estou no meio da multidão quando piso no palco quando fico triste quando ouço vozes na escuridão quando ilumino meu ser na imensidão quando não consigo te encontrar Te amo assim sem  ser e sem estar Te amo na sala de jantar embaixo do sofá no momento em que não está naquilo que não há há de haver há de ser e não será Te amo em qualquer lugar...